Editora: Gutenberg
Páginas: 272
Você já pensou nas consequências de suas palavras? Já desejou que algo ruim acontecesse com outra pessoa? E se isso se tornasse real, o que você faria?
Olá, essa é a primeira resenha do ano, e espero que gostem. Eu ouvi muitos comentários desse livro, principalmente no canal da Pam Gonçalves, e até que enfim consegui lê-lo. O bullying virou moda nos últimos tempos, qualquer coisa se torna motivo de piadas para esse tema tão sério, e esse é também o assunto desse livro que se tornou um dos mais lidos.
Valerie Leftman e Nick Levil sofriam bullying e tentavam aguentar toda a carga emocional que ele trazia. Ela era chamada pelas colegas exuberantes de Irmã Morte, por só usar roupas pretas e brancas e conviver com o grupo “Loser” da escola. Ele é magricelo e desengonçado devido à altura.
Para fugir de todas as coisas ruins e brincadeiras de mal gosto que sofriam, Val começa a criar uma lista das pessoas que a magoaram, como um lembrete de que não devia se aproximar delas, e talvez, na inocência, desejando que algo ruim acontecesse com elas também. Nick, seu namorado, descobre sobre esse caderno, e os dois passam a escrever juntos nele. Porém, Nick leva tudo a sério e o que deveria ser uma brincadeira, um meio de escapar da realidade, acaba fugindo do controle e os nomes citados na lista acabam sofrendo consequências terríveis.
As pessoas citadas na Lista Negra, pais, celebridades ruins, malfeitores e principalmente professores e colegas de aula, acabam se tornando alvos reais. Val nem desconfia dos planos de seu namorado, pois para ela o caderno e os nomes lá citados não passavam de uma fuga. Quando vê Nick se dirigindo a menina que quebrou seu MP3 de propósito no ônibus, ela até fica feliz por ele ir confronta-la, mas se depara com uma grande surpresa ao ver a arma escondida e em seguida seus colegas caindo devido ao início do tiroteio.
Para tentar parar com as mortes, e evitar que mais pessoas se ferissem, Val se atira na frente de Nick. Ao acertá-la ele para e atira em si mesmo pondo um fim em todo o caos que se formou dentro da cantina do Colégio Garvin. Valerie passa meses no hospital e em unidades psiquiatras para tentar se recuperar do trauma e dos ferimentos físicos. Além disso, ela também precisa lidar com todas as acusações da policia, da imprensa e dos colegas que passam a vê-la como cúmplice de Nick.
Ela é obrigada a voltar a escola e encarar os fatos, encarar os colegas que sobreviveram e os que ainda sentem a perda dos amigos, reviver a dor e conviver com os olhares de todos. Os antigos amigos não existem mais, os problemas familiares só aumentam, e ela acaba se isolando do resto das pessoas por medo de sofrer tudo novamente.
Às vezes, todos temos de ser vencedores. Mas o que ele não entendeu foi que todos temos também de ser perdedores. Porque não se consegue uma coisa sem a outra.
O livro se passa entre flashs do passado e do presente, trazendo notícias divulgadas pela imprensa sobre o atentado, depoimentos dos envolvidos e muitas acusações contra Valerie e Nick. Ela não sabe como tentar reconstruir sua vida, seu único ‘porto seguro’ passou a ser seu terapeuta, Dr Hietler, e as aulas de pintura de Bea, uma artista mística. Com o passar do tempo e com os conselhos do Dr, ela começa a se recuperar do trauma e da opressão que sofria.
Além de aguentar a impressa, os colegas e sobreviventes do tiroteio, os olhares tortos e as acusações vindas de todos os lados, Val também precisa enfrentar os problemas familiares que se acumularam depois do incidente. Seus pais sempre brigaram, mas tudo se intensificou depois que Valerie voltou para a escola. Sua mãe deixa claro que não acredita na inocência da filha, apesar de querer protegê-la, afirma que a filha tem culpa por escrever todos os nomes na lista. Seu irmão acaba sendo alvo das discussões dos pais e se afasta de Val. E seu pai, o pior de todos, que a acusa de muitas formas e lhe fala coisas que nunca esperamos que um pai fale pra um(a) filho(a).
A cada página conhecemos mais da personagem, suas discussões internas e pensamentos sobre outros personagens. Ao conhecer Nick pelas lembranças de Val, percebemos que ele não é de todo ruim, que ele possui um lado humano, e até sensível, que não é todo tomado pela raiva. Apesar de tudo que ele fez, em determinados momentos não tem como sentir ódio do personagem, pois se pensarmos pelo outro lado ele também era uma vitima, mesmo que isso não justifique as atitudes extremas tomadas para enfrentar o bullying.
A autora conseguiu confundir nossos sentimentos, mesclar compaixão e raiva dos personagens e acompanhar a mudança deles ao longo da história. Eu senti pena e ao mesmo tempo compreensão pelas atitudes. Conseguia entender o medo e a coragem que se misturaram na mente de Val. Percebi as mudanças de personagens e pensei ‘por que eles não eram assim antes de tudo?’, mas como sempre as mudanças só vêm depois do ocorrido. Talvez todos sejam vilões ou talvez todos sejam vítimas, e talvez, todos possam ser as duas coisas.
Tivemos que lidar com uma dose brutal de realidade. O ódio das pessoas. Esta é a nossa realidade. As pessoas odeiam e são odiadas. Enchem-se de rancor e exigem castigo.
O livro me fez refletir bastante sobre as consequências de nossos atos, assim como ocorreu em Os 13 Porquês, que também abordava um pouco do bullying. A autora transmitiu a mensagem de maneira tão intensa que era impossível não sentir o peso que a personagem carregava nas costas. Além disso, o livro também demonstra o lado da superação, da amizade, dos rótulos, das mágoas, e principalmente do perdão, que foi muito importante para a conclusão da história.
A Lista Negra, o romance de estreia da autora, não retrata o final feliz de abraços e sorrisos entre os personagens, mas sim o como saber lidar com as situações que fogem do controle, e aqui, cada personagem lidou com isso de uma forma diferente. A tristeza está presente na história, mas cada um a enfrenta como pode, e é isso que torna a história única. É um livro intenso, repleto de sentimentos confusos e com certeza deve ser lido por todos.

