Autor: Stephen King
Editora: Objetiva
Páginas: 172
"Era um pesadelo, tornado mais vivo e mais persuasivo pela própria leveza do sono."
Como já disse em várias resenhas por aqui, Stephen King conquistou meu coração de leitora, por isso venho tentando ler cada vez mais obras do autor. A última história dele lida foi Jogo Perigoso e confesso que foi a que menos gostei até agora. A narrativa nesse livro é diferente das demais obras de King e talvez por isso o livro não me cativou tanto como aconteceu com os outros.
Tudo começa quando Jessie e Gerald tentam dar uma apimentada em seu casamento. Os dois começam com alguns jogos sexuais, mas Jessie acaba se arrependendo e decide não continuar com aquilo. Gerald por sua vez, não da atenção aos pedidos da esposa e depois de algumas confusões entre os dois, ele acaba sofrendo um infarto, deixando Jessie sozinha, seminua e presa à cama com algemas, na casa do lago no Maine, longe de tudo e de todos.
O enredo traz um drama psicológico muito forte em questão do medo, da loucura e da sanidade da personagem. A situação da protagonista, é angustiante em toda a narrativa e deixa transparecer um temor que talvez muitos enfrentem algum dia, medo de ficar sozinho. Tudo que Jessie precisava era arranjar um jeito de sair daquela situação, caso contrário, morreria de fome e sede.
A maioria das pessoas associa o ato de contar até dez com o esforço de manter a calma, dissera Nora, mas o que essa contagem realmente faz é nos dar uma chance de reajustar os nossos marcadores emocionais... e qualquer um que não precise de um reajuste, no mínimo uma vez por dia, provavelmente tem problemas bem mais sérios do que os seus ou os meus.
Durante todo o enredo, Jessie ouve vozes em sua cabeça que mostram seu desespero, os sinais de loucura que vão surgindo com o passar das horas e principalmente os pesadelos do passado com os quais a protagonista se vê obrigada a encarar. Os segredos que ela tentou esconder de todos e até dela mesma vem à tona deixando Jessie cada vez mais desesperada para sair daquela situação.
Jessie grita por ajuda em vários momentos da história, mas seus gritos não são ouvidos. O únicos sons são de uma motosserra que deve estar a quilômetros de distância e os latidos de um cachorro que resolve comer o cadáver de seu marido. As chaves das algemas estão longe, ela não tem como pedir ajuda, as vozes em sua cabeça a atormentam e a sede é cada vez maior.
Em uma das cenas em que Jessie precisa pegar um copo d'água, em cima de uma prateleira e ouve os gelos batendo contra o copo. Nessa parte, eu consegui sentir minha garganta seca como a da protagonista, sentia a necessidade dela em recuperar aquele copo, em beber a água e sobreviver. A água era tudo naquele instante e senti a agonia da personagem. A narração de King, me fez querer água tanto quanto Jessie.
A história se passa, na maior parte do tempo, dentro da cabeça da personagem, envolvendo os leitores em seus traumas, medos e lembranças do passado. O elemento sobrenatural está presente, mas se torna confuso para o leitor e é difícil interpretar se aquilo é real ou mais um truque da mente. Fiquei confusa em muitas partes da história tentando identificar se o pensamento era de Jessie ou das vozes que a acompanham na luta pela sobrevivência.
Um dos assuntos marcantes na história, que conforme fui lendo percebi ser o ponto principal do terror da protagonista, foi o abuso que sofreu quando criança. King trouxe isso de uma forma tão impactante que me fez ficar chocada e com nojo da situação. A inocência de Jessie ao não querer contar o que aconteceu e achar que aquilo foi sua culpa, foi marcante durante a história e esse é o principal temor da protagonista.
Você realmente a viu, Jessie. Era a Morte, e você realmente a viu, como acontece frequentemente com as pessoas que morrem em solidão. Claro que a vêem: está estampado em seus rostos contorcidos e nos olhos esbugalhados.
Por esse fato ser o mais impactante, temos aqui um ponto de ligação com outra parte da história: o medo da morte. Em meio a sua mente, já não tão lúcida, Jessie tem certeza que vê um homem parado no canto do quarto, com uma mala cheia de ossos e joias. A figura da morte foi representada no livro como o maior temor da protagonista que em meio a devaneios acreditava que o homem que via era seu pai. E nessa parte, talvez Stephen King quis mostrar que a morte pode ter várias formas, principalmente aquilo que mais se teme.
O vento soprava. a porta batia. E em algum lugar próximo, uma tábua estalou furtivamente do jeito que as tábuas estalam quando alguém tenta não fazer ruído e pisa nelas de leve.
Cada vez que a figura, que não sabemos se é real ou não, volta, Jessie sente o pavor aflorar a pele, e ela precisa lutar desesperadamente para sair daquela situação; Ela está no seu limite, e acompanhamos a angústia da personagem do início ao fim. A história me fez pensar muitas vezes no drama enfrentado pelo protagonista de Misery, mas não chegou a ter tanto impacto como o esperado.
O livro é uma boa história, mas por ficar confusa com as vozes e personalidades na cabeça da protagonista eu acabei deixado o livro de lado em várias ocasiões, achei a história lenta e talvez por isso não gostei tanto da obra. É claro que recomendo o livro, afinal é uma obra do mestre Stephen King, mas meu conselho é: se você já conhecer outras obras de King, leia, se você estiver pensando em começar a ler obras do autor, acho melhor começar por outra história.