4 de fevereiro de 2016

Resenha: Caixa de Pássaros

Autor: Josh Malerman
Editora: Intrínseca
Páginas: 272


Em um mundo de recursos escassos, olhos vendados, e um terror persistente, encarar os próprios medos é apenas o início da viagem. 

Finalmente resolvi fazer a resenha do último livro lido no ano passado, e para começar essa resenha digo que não sei definir esse livro. Nunca tinha lido nada igual, nada que me prendesse tanto a ponto de ler tudo em uma única madrugada. Não tinha como parar, não tinha como deixar o próximo capítulo para outra hora, eu precisava dele, precisava saber o que acontecia com os personagens e, por isso, o livro se tornou um dos melhores livros que li. 

Tudo começa quando um surto, uma espécie de loucura coletiva, começa a ser divulgado em redes sociais e meios de comunicação, no mundo todo, deixando a população em pânico. Segundo os noticiários, se as pessoas olharem para determinada coisa, começariam a agir diferente, com raiva e insanidade, atacando quem estivesse próximo e depois cometiam suicídio. Ninguém sabe como tudo isso surgiu, nem porque atingiu uma escala global, mas o surto se tornou cada vez mais presente entre a população que tentava desesperadamente encontrar uma forma de escapar. 

Malorie é uma das pessoas que não acredita em nenhuma história contada, até que sua irmã também é atingida pelo surto e tudo muda, fazendo com que a personagem busque uma maneira de escapar. Cada pequena fresta de luz começa a ser fechada para que o perigo não seja visto, mesmo não sabendo do que se trata o perigo, todos começam a colocar tábuas nas janelas e venda sobre os olhos para não correr o risco de enxergar. 
Os dias começam a se misturar. Foi por isso que fizemos o calendário na parede da sala de estar. Sabe, o tempo não significa nada, de certa forma. Mas é uma das poucas coisas que restaram das nossas antigas vidas.
As autoridades somem, a internet e a tv não funcionam mais, o tempo começa a se perder e todos, incluindo a personagem que acompanhamos, não saem mais de casa de olhos abertos. Não há como olhar para fora, não há como enxergar o céu, não há como correr o risco de se expor ao medo, mas Malorie precisa arriscar. Ela está gravida e depois de sua irmã ser atingida pelo surto, ela resolve sair às cegas procurando uma casa que afirma oferecer ajuda. Ao encontrar, ela conhece Tom, um ex professor e outras pessoas que a auxiliam e lhe dão coragem para fazer o que precisa fazer. 


Cinco anos se passaram, muitas coisas aconteceram nesse período, dentro da casa onde estava, e agora Malorie precisa cuidar de si e de duas crianças que nunca viram o céu. Ela precisa tomar a decisão que pode salvar suas vidas ou as destruir de vez. Entre os medos que estão lá fora, seus medos internos, e preocupações maternais, será que ela conseguiu tomar a decisão certa? 

O livro contem flashs entre o presente e o passado, que nos explicam como Malorie chegou naquela situação extrema, naufragando num barco, com duas crianças de quatro anos, a quem se refere como garoto e menina, todos vendados. Os ouvidos das crianças são a única esperança para sobreviver aquilo tudo, aos perigos do rio e da floresta e quem sabe voltar a ver o mundo. A escrita do autor é instigante e descreve um terror psicológico fantástico que me fez querer virar as páginas sem parar.
Remar vendada é ainda mais difícil do que Malorie havia imaginado. Já aconteceu de muitas vezes o barco bater nas margens e ficar preso por vários minutos. Durante esse tempo, ela foi tomada por imagens de mãos invisíveis tirando as vendas dos olhos das crianças. Dedos emergindo da água, surgindo da lama das margens.
O medo está presente, mas do que é esse medo? Ninguém sabe, pois é difícil explicar a forma de um medo quando este não pode ser visto. Talvez o medo esteja dentro da cabeça de cada um, talvez o medo das pessoas sejam as próprias pessoas, não sabemos, mas sabemos que não se pode olhar pra ele. Malorie não mostra apenas a luta pela sobrevivência de si e dos filhos em um ambiente caótico, mas também a luta para esquecer seus próprios medos internos. 

Josh estimula o leitor a buscar por respostas, a querer respostas, mas mostra que nem sempre elas são possíveis. Criamos teorias, criamos formas para a criatura que está assombrando o mundo, mas não conseguimos a definir, e o medo presente no livro continua desconhecido, sem explicações, e esse é o diferencial da história. Temos medo de muitas coisas, mas o desconhecido continua sendo o pior deles, e sendo assim, sentimos o desespero dos personagens. 

Eu amei o livro em todos os detalhes. A editora Intrínseca fez um ótimo trabalho de diagramação. Uma capa simples, mas que chama muito a atenção dos leitores, folhas amarelas, e desenhos de árvores no início de cada capítulo que se relacionam muito bem com as circunstâncias em que se encontra a personagem. 


Para quem gosta de histórias de terror, com muita ação, talvez não deva criar muitas expectativas sobre o livro, mas para quem consegue entender que o terror também pode ser algo psicológico esse é o livro perfeito. Talvez muitos se decepcionem com o final um pouco inconclusivo, eu também gosto de finais que tirem toda as minhas dúvidas, mas por incrível que pareça eu adorei o final desse livro, adorei não saber o que causava medo nas pessoas, pois talvez o medo esteja nas próprias pessoas, o homem é a criatura que ele teme. 
É melhor enfrentar a loucura com um plano do que ficar parado e deixar que ela nos alcance aos poucos.
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