Editora: Suma de Letras
Páginas: 189
Todos temos um segredo trancado a sete chaves no sótão da alma. Este é o meu.
Esse é um dos livros que eu provavelmente não olharia ou compraria nas livrarias. Com certeza ao procurar títulos nas estantes ele passaria despercebido para mim. Um erro terrível. Mas graças a indicações resolvi comprar e dar uma chance para a escrita um tanto gótica de Zafón. Já tinha ouvido falar de outros livros do autor, como A Sombra do Vento, mas nunca tinha me interessado por eles, então esse foi meu primeiro contato com o autor e já quero mais.
Marina é um livro curtinho, com uma história um pouco sombria e sobrenatural, mas leve e fácil de ler. O livro conta a história de Oscar, nosso narrador de 15 anos, que estuda nos internatos de Barcelona da década de 80. Por sua imensa curiosidade e busca por aventuras, em um dos passeios pelas ruas da cidade ele encontra uma mansão que parece estar abandonada, porém uma suave música atrai sua atenção para dentro dela.
Ao andar pelo interior da casa, é surpreendido por um vulto que o deixa assustado, fugindo as pressas para o internato e levando consigo, sem querer, um relógio de ouro. Não querendo parecer um ladrão, Oscar retorna a mansão para devolver o relógio e é assim que conhece Marina e Gérman, que se tornam amigos e protagonistas junto com ele.
Marina, a menina dos olhos acinzentados, também tem um desejo por descobrir coisas novas e se aventurar em busca dos mistérios da cidade. Todo último domingo de cada mês, ela observa uma dama de preto que vai ao cemitério local com a aparência misteriosa. A dama não leva flores, apenas um símbolo: uma borboleta preta, que deposita sob o tumulo sem nome que sempre visita. Depois de observarem, os dois protagonistas estão dispostos a desvendar o mistério que envolvem a dama de preto. A partir daí as coisas estranhas começam a acontecer.
A dama de preto leva nossos protagonistas a uma estufa, cheia de marionetes, formadas de ossos e pele humana. O cenário que encontram é macabro e ao mesmo tempo bizarro, deixando-nos com medo do que pode vir a seguir. O enredo das marionetes, da dama de preto, e dos mistérios que envolvem o livro, vão sendo contados ao longo da história, pelos olhos do nosso narrador, de um jeito leve, mas sombrio, deixando os leitores intrigados.
Barcelona se tornou o cenário perfeito, sobre a morte e os mistérios, nas mãos de Zafón. A narrativa de Oscar e Marina gira em torno da sombria história do imigrante Mijail Kolvenik, considerado um gênio das próteses, e uma atriz deslumbrante, que trouxe para Barcelona um medo perturbador. O enredo é cheio de detalhes e muitas vezes conseguimos ouvir o arrastar de coisas descritas pelo autor. Por ter como narrador Oscar, conseguimos sentir um pouco da inocência do personagem, apesar da grande coragem, e ainda reconhecemos o sentimento de proteção que aflora entre ele e Marina.
Naquela noite, Mijail disse que a vida concede a cada um de nós apenas alguns raros momentos de felicidade. Às vezes são apenas dias ou semanas. Às vezes anos. Tudo depende da sorte de cada um. A lembrança desses momentos nos acompanha para sempre e se transforma num pai da memória ao qual tentamos regressar pelo resto de nossas vidas, sem conseguir.
Marina é um livro carregado de sentimentos e foi a isso que me apaguei na história. Medo, paciência, amor, carinho, amizade, cumplicidade e dúvida, são o que movem nossos personagens e nos ajuda a conhecê-los melhor. O passado começa a vir à tona, e assim como os personagens, percebemos que nem tudo é o que parece, por isso, os dois acabam buscando o outro lado da história. O que era para ser apenas uma aventura de crianças acaba virando um perigo real, que os faz correr contra o tempo para que não tenha mais prejudicados.
Apesar de todo o mistério e perigo, o livro é leve, com uma narrativa que flui a cada página e vai nos revelando o que precisamos saber para que tudo se encaixe no final. O livro também tem fortes metáforas sobre a morte e a aceitação dela em seus vários sentidos, o que achei interessante, pois contribui para um desfecho surpresa que o livro traz. O enredo também traz uma espécie de drama, mas não daquele tipo clichê, mas um drama tocante, ingênuo e humano, que nos faz refletir sobre o que desejamos na vida: grandezas ou apenas ser feliz?
"Ninguém entende nada da vida enquanto não entende a morte”.
A história me cativou, o autor me cativou e com certeza entrou para a lista de autores que desejo ler mais. A escrita de Zafón é incrível, rica em detalhes e descrições e a cada virada de páginas eu ficava encantada pelo toque sombrio e ao mesmo tempo suave que ele conseguiu desenvolver. Uma história excêntrica e original, no meu ponto de vista, com um final de partir corações. Um autor, uma história, um livro que deve ser lido.
