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16 de setembro de 2016

Resenha: A Morte de Sarai

Autora: J. A. Redmerski
Editora: Suma de Letras
Série: Na companhia de Assassinos
Páginas: 255


A garota é uma bomba-relógio, um perigo para si mesma. 

Ao começar a leitura desse livro, pensei que seria algo totalmente do que realmente foi. Um livro que tinha tudo para ter um toque de ação excelente, mas como acontece às vezes, a escrita acabou focando num romance clichê que se desenvolveu do nada entre os protagonistas. E senhores, como detesto esse tipo de romance.

Sarai é uma jovem, vendida pela família a uma espécie de tráfico, vivendo em meio à escravidão, ao abuso e a violência sexual desde os 14 anos. A história tinha tudo para ser uma crítica sexual sobre as coisas que fingimos não ver, sobre mulheres que passam por isso quase diariamente, mas como já disse, a narrativa se perdeu em meio emoções supérfluas que não ajudaram a contribuir para o enredo. 

A protagonista da história, Sarai ou Isabel como passa a ser chamada, vive nesse cárcere de drogas e prostituição, nos desertos do México, há nove anos. Javier é o responsável por tudo e está “apaixonado” por Sarai, o que a poupa de muitas situações. A ideia de liberdade já lhe parecia algo distante apesar dela nunca desistir, principalmente quando via os abusos que as outras garotas recebiam. 


Sarai encontra uma oportunidade de fuga quando um americano surge para resolver algo com Javier. Victor é um assassino de aluguel, que está longe de ser o cara bonzinho e cheio de piedade que ajuda alguém. Ele é frio, calculista e fechado, faz o que lhe mandam, não importa o que seja. Mesmo sem querer ele se envolve na fuga de Sarai, e foi a partir daí que eu comecei a desgostar um pouco da história. 

A partir desse ponto, o livro passa a girar entre a vida de Sarai e Victor, intercalando seus pontos de vistas entre a narrativa. A protagonista conseguiu sua fuga, mas por viver tanto tempo naquele lugar, ela não tem mais para onde ir ou outra pessoa que a ajude, sendo assim Victor é sua última esperança.

Os dois personagens iniciam uma fuga desenfreada contra os traficantes que estão atrás de Sarai. Ambos precisam sobreviver a isso e aos seus demônios particulares de um passado que ainda os assombra. Os personagens são fortes, vivem seus problemas pessoais e enfrentam tudo que lhes é imposto. Mas tudo se perde com a “romantização” do problema.
Linda, mas derrotada e destruída. Destruída para o resto da vida, e nenhuma  dose de mutilação emocional vai lhe devolver totalmente a inocência.

Desde o início, os dois parecem ter uma forte atração um pelo outro, o que particularmente não faz sentido nenhum para mim. Sarai passou por um grande trauma pessoal, ela foi abusada durante anos, mas parece confiar cegamente em um assassino e se apaixonar por ele. Para alguém que sofreu um trauma assim, com certeza ela não se envolveria tão facilmente com outra pessoa, portanto o romance não condiz com a realidade.

Já Victor, é o cara durão, que mataria qualquer pessoa que lhe criasse um problema sem se preocupar. Contudo, ele parece criar um vínculo de proteção com Sarai, como se os personagens se conhecessem há anos. Essa visão, proporcionou uma visão chata de que a personagem não precisava ter medo de nada (e não tinha) porque o “príncipe” estava ali para protegê-la.
Nunca consegui ler de verdade seu rosto, porque suas emoções, se é que ele tem alguma, parecem impenetráveis. 
A carga emocional e de vida dos personagens pareceram não ser o foco do livro, o que na minha opinião estragou a história. Talvez eu seja a chata que não gosta de romances, mas numa história como essa, cheia de problemas sociais, o romance não precisava estar incluído, a história se faria história sem ele.

E assim, surge a pergunta: Será que, atualmente, todos os livros precisam romantizar para serem lidos? Será que as histórias não conseguem se fazer boas, simplesmente pelo fato de conter um drama e uma realidade social? Ou por desenvolver outras características dos personagens sem o velho e chato clichê do casal que só sobreviverão juntos? 

Para pessoas que nem eu, o romance, nesse caso, só se torna um meio que a autora/editora encontrou de vender o produto, por acharam que livros só serão livros com a pitadinha de amor. Às vezes, o romance não é necessário para a construção do livro. 

Eu gostei da história, não tanto como esperava, mas não foi de todo ruim. Gostei bastante das partes de ação, do passado dos personagens e dos motivos que tiveram. As partes em que Sarai se desenvolve e cresce sozinha em sua história, consegue suas vinganças e chega a um estado de liberdade da alma, são excelentes. É uma pena, que a história não tenha se mantido só nesse sentido e se perdeu no romance clichê desnecessário. 

14 de março de 2016

Resenha: Marina

Autor: Carlos Ruiz Zafón
Editora: Suma de Letras
Páginas: 189


Todos temos um segredo trancado a sete chaves no sótão da alma. Este é o meu.

Esse é um dos livros que eu provavelmente não olharia ou compraria nas livrarias. Com certeza ao procurar títulos nas estantes ele passaria despercebido para mim. Um erro terrível. Mas graças a indicações resolvi comprar e dar uma chance para a escrita um tanto gótica de Zafón. Já tinha ouvido falar de outros livros do autor, como A Sombra do Vento, mas nunca tinha me interessado por eles, então esse foi meu primeiro contato com o autor e já quero mais. 

Marina é um livro curtinho, com uma história um pouco sombria e sobrenatural, mas leve e fácil de ler. O livro conta a história de Oscar, nosso narrador de 15 anos, que estuda nos internatos de Barcelona da década de 80. Por sua imensa curiosidade e busca por aventuras, em um dos passeios pelas ruas da cidade ele encontra uma mansão que parece estar abandonada, porém uma suave música atrai sua atenção para dentro dela. 

Ao andar pelo interior da casa, é surpreendido por um vulto que o deixa assustado, fugindo as pressas para o internato e levando consigo, sem querer, um relógio de ouro. Não querendo parecer um ladrão, Oscar retorna a mansão para devolver o relógio e é assim que conhece Marina e Gérman, que se tornam amigos e protagonistas junto com ele. 

Marina, a menina dos olhos acinzentados, também tem um desejo por descobrir coisas novas e se aventurar em busca dos mistérios da cidade. Todo último domingo de cada mês, ela observa uma dama de preto que vai ao cemitério local com a aparência misteriosa. A dama não leva flores, apenas um símbolo: uma borboleta preta, que deposita sob o tumulo sem nome que sempre visita. Depois de observarem, os dois protagonistas estão dispostos a desvendar o mistério que envolvem a dama de preto. A partir daí as coisas estranhas começam a acontecer.


A dama de preto leva nossos protagonistas a uma estufa, cheia de marionetes, formadas de ossos e pele humana. O cenário que encontram é macabro e ao mesmo tempo bizarro, deixando-nos com medo do que pode vir a seguir. O enredo das marionetes, da dama de preto, e dos mistérios que envolvem o livro, vão sendo contados ao longo da história, pelos olhos do nosso narrador, de um jeito leve, mas sombrio, deixando os leitores intrigados. 

Barcelona se tornou o cenário perfeito, sobre a morte e os mistérios, nas mãos de Zafón. A narrativa de Oscar e Marina gira em torno da sombria história do imigrante Mijail Kolvenik, considerado um gênio das próteses, e uma atriz deslumbrante, que trouxe para Barcelona um medo perturbador. O enredo é cheio de detalhes e muitas vezes conseguimos ouvir o arrastar de coisas descritas pelo autor. Por ter como narrador Oscar, conseguimos sentir um pouco da inocência do personagem, apesar da grande coragem, e ainda reconhecemos o sentimento de proteção que aflora entre ele e Marina.
Naquela noite, Mijail disse que a vida concede a cada um de nós apenas alguns raros momentos de felicidade. Às vezes são apenas dias ou semanas. Às vezes anos. Tudo depende da sorte de cada um. A lembrança desses momentos nos acompanha para sempre e se transforma num pai da memória ao qual tentamos regressar pelo resto de nossas vidas, sem conseguir.
Marina é um livro carregado de sentimentos e foi a isso que me apaguei na história. Medo, paciência, amor, carinho, amizade, cumplicidade e dúvida, são o que movem nossos personagens e nos ajuda a conhecê-los melhor. O passado começa a vir à tona, e assim como os personagens, percebemos que nem tudo é o que parece, por isso, os dois acabam buscando o outro lado da história. O que era para ser apenas uma aventura de crianças acaba virando um perigo real, que os faz correr contra o tempo para que não tenha mais prejudicados. 

Apesar de todo o mistério e perigo, o livro é leve, com uma narrativa que flui a cada página e vai nos revelando o que precisamos saber para que tudo se encaixe no final. O livro também tem fortes metáforas sobre a morte e a aceitação dela em seus vários sentidos, o que achei interessante, pois contribui para um desfecho surpresa que o livro traz. O enredo também traz uma espécie de drama, mas não daquele tipo clichê, mas um drama tocante, ingênuo e humano, que nos faz refletir sobre o que desejamos na vida: grandezas ou apenas ser feliz?
"Ninguém entende nada da vida enquanto não entende a morte”.
A história me cativou, o autor me cativou e com certeza entrou para a lista de autores que desejo ler mais. A escrita de Zafón é incrível, rica em detalhes e descrições e a cada virada de páginas eu ficava encantada pelo toque sombrio e ao mesmo tempo suave que ele conseguiu desenvolver. Uma história excêntrica e original, no meu ponto de vista, com um final de partir corações. Um autor, uma história, um livro que deve ser lido. 

7 de julho de 2015

Resenha: Sobre a Escrita

Autor: Stephen King
Editora: Suma de letras
Páginas: 256

Vida longa ao King!

Muitos apaixonados por livros já pensaram em escrever suas próprias histórias, inventar um mundo, fantasiar, porém querer e saber escrever são duas coisas diferentes. Esse novo livro do Stephen King, que só recentemente ganhou tradução no Brasil, não me deixa mentir. E preciso destacar que o mestre de terror também é ótimo em histórias reais, sem monstros ou medo. 

O livro é dividido em quatro partes: Currículo; Caixa de Ferramentas; Sobre a escrita; Sobre a Vida. Na primeira delas, SK nos mostra o seu currículo de escritor, não seus livros publicados, mas sim como sua carreira começou, o que lhe ajudou a escrever, e como não desistir perante as inúmeras cartas de “recusado” no início da carreira. Relatos, acontecimentos e as diferentes fases da vida do autor são mostrados em uma narrativa leve e descontraída, que prende o leitor por todo o livro. 

O mestre do terror não é diferente de muitos autores por aí, teve dificuldades, teve seus textos recusados diversas vezes e vícios que quase acabaram com sua carreira e sua vida. Altos e baixos também passaram pela vida do autor, mas que com ajuda de familiares e amigos conseguiu sair de seu ‘buraco negro’ e impulsionar sua carreira.
As ideias para as boas histórias parecem vir, quase literalmente, de lugar nenhum, navegando até você direto do vazio do céu: duas ideias que, ate então, não tinham qualquer relação, se juntam e viram algo novo sob o sol. Seu trabalho não é encontrar essas ideias, mas reconhece-las quando aparecem.
No livro Stephen King cita várias referências para a criação de suas histórias, desde vícios, acidentes de carro, e até mesmo a cidade de onde veio, muitas vezes lhe ajudam a ter inspiração. Portanto futuros escritores, publicações ajudam sim, mas o currículo mais importante na vida de um escritor de livros são as próprias experiências de vida, você pode e deve utilizar sua bagagem emocional, desde que ela gere bons textos. 

O escritor dá muitas dicas, e várias vezes durante a leitura pude me sentir como se estivesse em uma sala de aula ouvindo meus professores (tanto da escola, como da faculdade) falar. Me diverti muito lendo, e principalmente aprendi muito sobre a escrita. Em meio a piadas, descontrações e histórias de vida eu tive uma magnífica aula.



Muitos pensam que para escrever um livro é preciso se isolar do mundo, se trancar num quarto e ficar lá até terminar todo o manuscrito, mas o mestre do terror nos mostra que as coisas não são bem assim. É preciso saber dividir o tempo, se concentrar quando estiver escrevendo, mas não deixar de lado as outras partes da sua vida, até porque “a vida não é um suporte à arte, é exatamente ao contrário”. 

Nesse sentido, uma das principais coisas que o autor cita é que você precisa ter alguém que lhe apoie, critique e ajude quando necessário, alguém que leia seus inúmeros projetos, lhe fale a verdade e não desista de você. Para Stephen King, sua maior auxiliadora foi sua esposa, Tabitha, que sempre procurou ser a mais sincera possível ao julgar um livro do autor. 
“Não há como transformar um escritor ruim em um bom escritor, mas há como transformar um escritor competente em um bom escritor.”
É claro que é preciso ter competência para escrever um livro, mas, além disso, também é preciso ler, e ler muito como o próprio King diz. Não existe uma formula de como se tornar um grande escrito, e talvez nem milhões de curso de escrita criativa podem ajudar, portanto, a prática diária, mesmo que exaustiva, é essencial. Assim como King, acredito que o primeiro passo para se tornar um escritor seja fazer por amor, e não pensar só na carreira de sucesso que poderá ter.
“A escrita não é para fazer dinheiro, ficar famoso, transar, ou fazer amigos. No fim das contas, a escrita é para enriquecer a vida daqueles que lêem seu trabalho, e também para enriquecer sua vida. A escrita é para despertar, melhorar e superar. Ficar feliz ok? Ficar feliz.”
Sobre a escrita é envolvente e prazeroso de ler, realmente uma grande aula baseada na sinceridade do autor em falar sobre sua carreira. Esse não é um livro apenas para aspirantes a escritores, mas para qualquer pessoa que deseja escrever bem, até mesmo em trabalhos escolares. Diminuir/cortar textos; deixar apenas o essencial para a história; e fazer revisão, são dicas que aprendo na faculdade, Stephen King só deixou ainda mais claro o quanto essas dicas são essenciais para uma boa escrita, além de ler muito, é claro.
“Se Você quer ser escritor, existem duas coisas a fazer, acima de todas as outras: ler muito escrever muito. Que eu saiba, não há como fugir dessas duas coisas, não há atalho [...] A leitura é o centro criativo da vida de um escritor. Eu levo um livro comigo aonde quer que vá, e não faltam oportunidades para mergulhar na leitura."

Esse livro foi o primeiro livro da MLI2015, mesmo não estando na TBR

26 de abril de 2015

Resenha: Misery

Autor: Stephen King
Editora: Suma de Letras
Páginas: 326


Não é um sonho. Só mais um dia no parque de diversões de Annie Wilkes, que está mais para pesadelo.

Mais uma vez, o ilustríssimo SK está marcando presença nas resenhas do blog e acho que não preciso mais dizer o quanto a escrita dele é fantástica. Misery não poderia ser diferente.

Nesse livro, temos a história de Paul Sheldon, que após terminar seu mais novo romance sai para comemorar, mesmo em meio a uma nevasca, e acaba sofrendo um acidente com o carro. E é assim que conhece seu anjo da guarda, a ex-enfermeira Annie Wilkes, que o salva e leva-o para sua casa. Mas as aparências enganam não é mesmo?

Depois de algum tempo desacordado, Paul começa a retomar a consciência com murmúrios de sua salvadora, que por sinal, se diz sua fã número um. Enquanto se acostuma com a volta das memórias, descobre que Annie não é quem ele pensa. Ela não esta querendo apenas cuidar de suas pernas destroçadas ou eliminar sua dor, ela quer mais, e aos poucos vai revelando uma mente doentia que torna Paul prisioneiro. 
Como uma fã fervorosa, Annie lê o último livro lançado pelo escritor sobre Misery, mas quando descobre o final trágico que Paul deu a sua personagem favorita ela mostra o quão descontrolada pode ser. Em meio a torturas e ameaças a enfermeira quer que Paul arrume um jeito de trazer Misery de volta, e bom, para sobreviver, é isso mesmo que ele terá que fazer, mas ele não imagina que sua nova ‘editora’ seja tão exigente. 

Ela compra folhas, uma máquina de escrever, e outros materiais de escrita, e obriga Paul a começar um novo livro, o qual espera ser lido só por ela, a melhor fã do escritor. A máquina de escrever tem um pequeno detalhe: a tecla ‘n’ não funciona, sendo assim, além de escrever por horas e horas pra conseguir um mísero analgésico para suas dores, ainda precisava completar as letras faltando quando Annie não estava de bom humor. E acreditem leitores, a editora fez questão de colocar todos os ‘n’ diferentes na diagramação do livro, um detalhe que achei essencial e incrível.
E a outra voz retornou imediatamente: Eu não sei se Deus vai ajudar ou atrapalhar, mas sei de uma coisa: se você não der um jeito de ressuscitar Misery de um modo que Annie possa acreditar, ela vai matar você.
King, como sempre, conseguiu criar um cenário excelente de narrativa, com apenas dois personagens, e em muitos momentos me juntei à dor de Paul. Fiquei angustiada de uma maneira que não sabia que era possível, senti as agonias e aflições do personagem, delirei junto com ele, senti medo e o desespero do personagem ao ter a enfermeira por perto, planejei maneiras de escapar das mãos de Annie e sofri a cada novo golpe que ela aplicava ao corpo de Paul. Sentia uma empolgação crescente a cada página virada e como diz nossa personagem, estava sentada na beira da cadeira esperando pela próxima. 

As mudanças de humor de Annie foram tão bem construídas que às vezes eu nem esperava que ela se tornasse sombria de uma hora pra outra. Em um momento ela está calma, conversando, dando risada e dois segundos depois ela fica com um olhar vago, sombrio, como se fosse um buraco, e começa a gritar histericamente dando ordens e maltratando seu visitante, ou melhor dizendo, prisioneiro.
Houve um estranho intervalo de silêncio e Paul teve medo do que viu no seu rosto, pois não havia nada ali. Era o nada escuro de um abismo escondido em uma campina, trevas onde flor nenhuma desabrochava e onde se poderia cair pra sempre. Era o rosto de uma mulher que momentaneamente se desgarrara de todas as posições e marcos vitais da existência, uma mulher que esquecera não apenas a lembrança que buscava, mas a própria capacidade de lembrar.
Não se pode esquecer de dizer que da enfermeira podemos esperar tudo, sua imprevisibilidade é o que dá um toque fantástico na narrativa.  E assim como Paul acabamos percebendo que seu maior medo não é morrer, mas sim continuar vivendo no mesmo teto que a doentia e psicótica Annie Wilkes. 
Acho que você pensa em escapar. Como um rato na ratoeira, não é? Mas você não vai escapar, Paul. Se essa fosse uma das suas histórias, talvez você conseguisse, mas não é. Eu não posso deixar você ir embora... mas posso ir com você.

A caracterização é tão grande que às vezes até esquecemos que tudo se passa dentro de um quarto ou nos corredores da casa de Annie. A ação é pequena, mas a tensão entre os dois personagens, a disputa psicológica e as emoções estão tão presentes que nos envolvemos na leitura como se estivéssemos sentados em um canto só observando a cena. 

Ao contrário de outros livros do autor, o medo não vem do sobrenatural, mas está associado intensamente a mente desequilibrada da vilã. Você não sabe o que esperar da personagem e é isso que a torna interessante e uma das melhores personagens que já li em algum livro de King. 
Paul, eu estou avisando. Se essa pessoa ouvir algum barulho, ou se eu  ouvir algum barulho e pensar que ela ouviu, eu mato seja lá quem for, quantos forem, depois mato você, e aí me mato.
Para quem nunca leu nada de Stephen King, esse é um bom passo inicial, mesmo não sendo uma obra característica do autor em seus âmbitos sobrenaturais. O sobrenatural aqui é falta de lucidez da personagem, e querendo ou não, você se apaixona por cada detalhe dela, mesmo com tamanha crueldade. Recomendo esse livro mil vezes, e continuarei dizendo que SK é incrível.


18 de janeiro de 2015

Resenha: O cemitério

Autor: Stephen King
Editora: Suma de Letras
Páginas: 424

Até onde você iria para salvar um ente querido? Qual o limite entre a loucura e a sanidade? Qual o nível de medo que a morte representa?


Por insistência de um grande amigo, esse foi o primeiro livro que li do espetacular Stephen King. Nunca tinha lido nada do gênero de terror e suspense e começar por esse foi quase um soco no estômago que fez eu me arrepender de não ter começado antes. 

O enredo conta a história de Louis Creed e sua adorável família. Ele é um jovem médico que consegue um emprego no ambulatório universitário em Ludlow, uma cidadezinha do Maine, e quando chegam à nova casa, tem uma sensação que agora tudo dará certo, que fizeram a escolha certa e terão uma vida tranquila na nova cidadezinha pacata. Grande engano. 

Logo que chegam, eles conhecem o vizinho Jud Crandall e sua esposa Norma, que moram do outro lado da estrada da Rota 15 muito movimentada e perigosa. O senhor simpático que parece conhecer todos os mistérios da região, os leva para conhecer as propriedades do terreno e nesse passeio acabam conhecendo o “simitério de bichos”, local onde as crianças enterram seus animais que morreram, principalmente, por causa da estrada, por varias gerações. 

Fonte: Psychobooks

Tudo parecia uma história fantasiosa de um senhor de idade que já viveu demais, mas após um acidente de trabalho, as coisas começam a ficar diferentes para Louis. Logo no primeiro dia no ambulatório da universidade, o jovem Victor Pascow morre de uma forma trágica, e acaba voltando em um sonho de Louis, vívido demais, o alertando sobre o terreno além do “semitério” de animais. (será que foi sonho ou só a preocupação da morte o assombrando?).

O sonho passou a atormentar Louis por dias, e devido ao seu comportamento estranho ele pede para que a família viaje para passar a Ação de Graças junto com os pais de sua esposa enquanto ele reorganiza seus pensamentos. Durante a viagem, por um descuido, o gato da filha é atropelado na Rota 15 e Jud o leva para conhecer o cemitério além do ‘simitério’ de bichos. E é aí que Louis Creed começa sua batalha entre manter sua sanidade ou se deixar envolver com os mistérios do lugar que podem levar à loucura.

Louis enterra o gato num antigo cemitério indígena dos micmac, que traz consigo a história do Wendigo, uma lenda do norte dos Estados Unidos, de um ser humano que passou muita fome durante um inverno e acabou aderindo às práticas do canibalismo para sobreviver, virando um monstro após isso. O cemitério é diferente, e ao enterrar o gato lá, ele acabou voltando à vida no dia seguinte, mostrando a Louis que às vezes é melhor aceitar a morte.

O gato voltou, mas não é o mesmo. Agora ele parece moribundo, lento, com um cheiro ruim e costumes que nunca teve como caçar ratos. Ele tem um jeito meio “morto”, e toda a família nota essa diferença. Depois desse acontecimento, tudo começa a parecer uma loucura para Louis e as coisas só pioram.
“Um homem planta o que pode e cuida do que plantou...”
Não posso falar o que acontece depois, porque a melhor parte do livro é ver como o personagem se transforma num louco devido aos acontecimentos futuros que ocorrem na sua família. A ação desesperada do personagem é nítida e fica cada vez pior com o passar do tempo e é isso que deixa a história com o clima de terror, medo e suspense arrepiante. 

O livro é divido em três partes, na primeira encontramos a apresentação dos personagens, seu dia a dia, na segunda um evento sobrenatural acontece fazendo com que Louis lide com as consequências de seus atos e a terceira é a mais aterrorizante mostrando a insanidade que a mente humana pode chegar com a morte de um ente querido. Stephen King escreve de uma forma envolvente do início ao fim, em algumas partes intercalando o pensamento dos personagens, o que, particularmente, achei bem interessante.

A morte está presente em todo o enredo do livro, inclusive na cabeça de Rachel, esposa de Louis, que viu sua irmã morrer quando era jovem e por isso evita falar sobre qualquer assunto que se relacione a isso. A descrição do autor sobre a doença da irmã é tão vívida que da quase pra sentir o cheiro descrito e as emoções relatadas. 

A tragédia que envolve os Creed é pesada e agonizante, e as fronteiras da vida e da morte se misturam assim como o poder de Deus e do homem, sobre coisas impossíveis. Em alguns trechos existem passagens bíblicas sobre Lázaro o que da um tom mais sinistro ainda para a história. O livro é perturbador e nos leva a pensar sobre a incapacidade humana de lidar com a perda, explorando os limites que estamos dispostos a encarar e romper por aquilo que amamos e o quanto isso pode ser perigoso. 

Para quem está começando no gênero de terror, assim como eu, essa é uma ótima obra para começar. Espero ler mais coisas do SK e me surpreender mais ainda com sua capacidade de aterrorizar a mente humana. Nunca sabemos nosso limite, mas até onde você iria para ter de volta alguém que ama?

Fonte editada: Psychobooks

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