Editora: Suma de Letras
Páginas: 326
Não é um sonho. Só mais um dia no parque de diversões de Annie Wilkes, que está mais para pesadelo.
Mais uma vez, o ilustríssimo SK está marcando presença nas resenhas do blog e acho que não preciso mais dizer o quanto a escrita dele é fantástica. Misery não poderia ser diferente.
Nesse livro, temos a história de Paul Sheldon, que após terminar seu mais novo romance sai para comemorar, mesmo em meio a uma nevasca, e acaba sofrendo um acidente com o carro. E é assim que conhece seu anjo da guarda, a ex-enfermeira Annie Wilkes, que o salva e leva-o para sua casa. Mas as aparências enganam não é mesmo?
Depois de algum tempo desacordado, Paul começa a retomar a consciência com murmúrios de sua salvadora, que por sinal, se diz sua fã número um. Enquanto se acostuma com a volta das memórias, descobre que Annie não é quem ele pensa. Ela não esta querendo apenas cuidar de suas pernas destroçadas ou eliminar sua dor, ela quer mais, e aos poucos vai revelando uma mente doentia que torna Paul prisioneiro.
Como uma fã fervorosa, Annie lê o último livro lançado pelo escritor sobre Misery, mas quando descobre o final trágico que Paul deu a sua personagem favorita ela mostra o quão descontrolada pode ser. Em meio a torturas e ameaças a enfermeira quer que Paul arrume um jeito de trazer Misery de volta, e bom, para sobreviver, é isso mesmo que ele terá que fazer, mas ele não imagina que sua nova ‘editora’ seja tão exigente.
Ela compra folhas, uma máquina de escrever, e outros materiais de escrita, e obriga Paul a começar um novo livro, o qual espera ser lido só por ela, a melhor fã do escritor. A máquina de escrever tem um pequeno detalhe: a tecla ‘n’ não funciona, sendo assim, além de escrever por horas e horas pra conseguir um mísero analgésico para suas dores, ainda precisava completar as letras faltando quando Annie não estava de bom humor. E acreditem leitores, a editora fez questão de colocar todos os ‘n’ diferentes na diagramação do livro, um detalhe que achei essencial e incrível.
E a outra voz retornou imediatamente: Eu não sei se Deus vai ajudar ou atrapalhar, mas sei de uma coisa: se você não der um jeito de ressuscitar Misery de um modo que Annie possa acreditar, ela vai matar você.
King, como sempre, conseguiu criar um cenário excelente de narrativa, com apenas dois personagens, e em muitos momentos me juntei à dor de Paul. Fiquei angustiada de uma maneira que não sabia que era possível, senti as agonias e aflições do personagem, delirei junto com ele, senti medo e o desespero do personagem ao ter a enfermeira por perto, planejei maneiras de escapar das mãos de Annie e sofri a cada novo golpe que ela aplicava ao corpo de Paul. Sentia uma empolgação crescente a cada página virada e como diz nossa personagem, estava sentada na beira da cadeira esperando pela próxima.
As mudanças de humor de Annie foram tão bem construídas que às vezes eu nem esperava que ela se tornasse sombria de uma hora pra outra. Em um momento ela está calma, conversando, dando risada e dois segundos depois ela fica com um olhar vago, sombrio, como se fosse um buraco, e começa a gritar histericamente dando ordens e maltratando seu visitante, ou melhor dizendo, prisioneiro.
Houve um estranho intervalo de silêncio e Paul teve medo do que viu no seu rosto, pois não havia nada ali. Era o nada escuro de um abismo escondido em uma campina, trevas onde flor nenhuma desabrochava e onde se poderia cair pra sempre. Era o rosto de uma mulher que momentaneamente se desgarrara de todas as posições e marcos vitais da existência, uma mulher que esquecera não apenas a lembrança que buscava, mas a própria capacidade de lembrar.Não se pode esquecer de dizer que da enfermeira podemos esperar tudo, sua imprevisibilidade é o que dá um toque fantástico na narrativa. E assim como Paul acabamos percebendo que seu maior medo não é morrer, mas sim continuar vivendo no mesmo teto que a doentia e psicótica Annie Wilkes.
Acho que você pensa em escapar. Como um rato na ratoeira, não é? Mas você não vai escapar, Paul. Se essa fosse uma das suas histórias, talvez você conseguisse, mas não é. Eu não posso deixar você ir embora... mas posso ir com você.
A caracterização é tão grande que às vezes até esquecemos que tudo se passa dentro de um quarto ou nos corredores da casa de Annie. A ação é pequena, mas a tensão entre os dois personagens, a disputa psicológica e as emoções estão tão presentes que nos envolvemos na leitura como se estivéssemos sentados em um canto só observando a cena.
Ao contrário de outros livros do autor, o medo não vem do sobrenatural, mas está associado intensamente a mente desequilibrada da vilã. Você não sabe o que esperar da personagem e é isso que a torna interessante e uma das melhores personagens que já li em algum livro de King.
Paul, eu estou avisando. Se essa pessoa ouvir algum barulho, ou se eu ouvir algum barulho e pensar que ela ouviu, eu mato seja lá quem for, quantos forem, depois mato você, e aí me mato.
Para quem nunca leu nada de Stephen King, esse é um bom passo inicial, mesmo não sendo uma obra característica do autor em seus âmbitos sobrenaturais. O sobrenatural aqui é falta de lucidez da personagem, e querendo ou não, você se apaixona por cada detalhe dela, mesmo com tamanha crueldade. Recomendo esse livro mil vezes, e continuarei dizendo que SK é incrível.



