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18 de julho de 2016

Resenha: O Planeta dos Macacos

Autor: Pierre Boulle
Editora: Aleph
Páginas: 216


Contemplava a imensidão do mundo e deixava-se hipnotizar, como volta e meia lhe acontecia, pela sensação cósmica do nada.


Ler uma história de uma das séries mais aclamadas de filmes, cria em nós, leitores, uma grande expectativa e, às vezes, a história acaba nos decepcionando. Felizmente, essa não foi a situação encontrada ao ler Planeta dos Macacos. Ouvi um monte de gente comentando sobre o livro, positiva e negativamente, mas para mim a história foi surpreendentemente boa. 

Ulysse Mérou é um jornalista francês que, na companhia de um renomado cientista e seu aprendiz, parte do planeta Terra com o intuito de explorar a galáxia e conhecer outros planetas. Ao iniciarem a jornada, os três tinham conhecimento de que o tempo seria diferente em cada lugar e que, ao regressarem, a Terra também estaria diferente pois séculos haveriam se passado.

Após alguns anos de viagem, dois se não me engano, Ulysse e seus companheiros encontram outro planeta, denominado Betelgeuse. Ao desembarcarem no novo planeta, os três notaram que o lugar se parecia muito com seu planeta de origem. O mesmo ar, água, plantas e alimentos, porém as semelhanças encerram aí. 

Ao explorar o ambiente eles encontram humanos que ali vivem, e o primeiro contato lhes faz notar algo assustador: os humanos ali não possuem o intelecto desenvolvidos, agem como animais e invés da fala, desenvolvem grunhidos. O planeta é dominado pelos símios, ou seja, macacos, e a espécie humana é refém e dominado por esses seres. 
Arquibancadas, em torno e acima de mim, achavam-se tomadas por macacos. Havia milhares deles. Nunca tinha visto tantos símios reunidos; sua profusão transcendia os sonhos mais loucos de minha mísera imaginação terrestre: seu número me assustava.
A história é narrada do ponto de vista de Ulysse, e a escrita é bem leve, de forma que a narrativa seja lida bem rápido. Descobrimos o novo mundo junto com o personagem e, por isso, consegui me envolver com a história. Ao decorrer do enredo, vi que minhas dúvidas também eram as dúvidas do personagem, e ele sempre tentava me mostrar o que fosse preciso. Pude sentir na pele o impacto que tudo causava a Ulysse como se fosse eu mesma em um planeta diferente.

Em determinado ponto, Ulysse é obrigado a viver com os macacos, convivendo com eles e assim, mantendo-se seguro. É através disso, que ele descobre como a civilização surgiu, suas regras, classes e divisões, sua história e os acontecimentos que os levaram a fazer testes em humanos. Aqui conseguimos notar uma mera semelhança com a nossa civilização, em que testes são feitos em outras espécies.
O macaco é, naturalmente, a única criatura racional, a única que possui alma e corpo ao mesmo tempo. Os mais materialistas de nossos cientistas reconhecem a essência sobrenatural da alma simiesca

Com a leitura se desenrolando, notei que Pierre quis demonstrar o verdadeiro sentido do existir humano. No livro o papel de caça e caçador são invertidos e aí paramos para pensar: o fato da nossa inteligência nos torna mesmo maiores que os outros ou assim como os macacos só estamos imitando uma série de coisas que já vimos acontecer? Será que temos o direito de explorar outros seres somente pela nossa capacidade de raciocinar?

Durante a narrativa, também temos a personagem de Zira, uma macaca que ajuda Ulysse em sua jornada. Ela, sem dúvida nenhuma é a personagem mais “humana” que encontramos ali. Ela tem a sensibilidade de notar o sofrimento alheio, mesmo que em raças inferiores, e tentar ajudá-los. Zira nos faz entender que o espírito é que da valor ao corpo, que não é o físico, mas a alma que habita ali.  

Com isso, posso dizer que O Planeta dos Macacos, com todas as suas peculiaridades, é um livro surpreendente. A história é grandiosa, trata de valores, inteligência e humanidade de uma forma simples e segura que realmente nos faz refletir e tentar se imaginar conforme aquele mundo e aquelas regras. Eu não assisti a todos os filmes, por isso consegui fazer uma análise somente da leitura e adorei tudo. 

Cheguei ao final do livro com a sensação angustiante e a pergunta que não saía da cabeça: e se isso realmente acontecesse? E assim, também notei uma crítica social que me fez perguntar até onde a espécie pode chegar antes que seja decretado seu fim. Para os fãs de ficção científica esse é o livro recomendado, e para quem não é tão fã assim, talvez seja a hora de arriscar novas histórias e dar uma chance para o gênero. Garanto que vale a pena ser tirado da zona de conforto.


13 de janeiro de 2016

Resenha: Laranja Mecânica

Autor: Anthony Burgess
Editora: Aleph
Páginas: 224


“A bondade é uma coisa que se escolhe. Quando alguém não pode escolher, deixa de ser humano.“


Laranja Mecânica é o primeiro livro “clássico” que leio na vida. Eu não costumo me interessar por livros assim, mas com o lançamento da Editora Aleph resolvi arriscar. Infelizmente na época que comprei a capa ainda era essa, então eu não tenho a edição comemorativa de 50 anos, também publicado pela Aleph que ficou divinamente linda.

O livro narra a história de Alex, um garoto de 15 anos, integrante de um grupo de delinquentes, do qual é o líder, que destinam grande parte do seu tempo livre para cometer crimes, desde roubos, espancamentos até estupros somente por diversão. Em uma das noites que decidem assaltar a casa de uma senhora, as coisas dão erradas e Alex é traído pelos seus “druges” (amigos) Pete, George e Tapado, e é condenado a 14 anos de prisão.

Por demonstrar um comportamento oposto ao que era esperando nos primeiros anos na prisão, o governo opta e submete o jovem, por persuasão, a um tratamento de choque ainda em fase de teste, chamado Técnica Ludovico. Segundo os criadores do tratamento, ele extingue toda a maldade em apenas duas semanas, sendo assim, eliminando os impulsos criminosos de pessoas como Alex.

Para que o tratamento seja devidamente realizado, o individuo é submetido a sessões diárias de filmes de violência, injetando substâncias que garante mal estar e enjoos. Durante as sessões o paciente é impedido pelos equipamentos de fechar os olhos e digo pra vocês que é agonizante imaginar essa cena.

Ao começar a ler, eu estranhei bastante o vocabulário, pois o autor criou uma mistura do inglês com o russo que nos confunde um pouco. Mas ao ingressar na leitura realmente você começa a compreender as gírias do protagonista e o vocabulário estranho deixa de ser um problema. O livro também possui um glossário no final, então quem tiver dificuldade com os termos pode consultá-lo, eu optei por ler e fazer meu próprio entendimento das gírias, até porque li no Kindle e seria muito complicado.

O livro é dividido em três partes, na primeira somos apresentados ao nosso humilde narrador, na segunda temos Alex na prisão e o início da terapia, e na terceira temos os resultados do projeto na sociedade, as questões éticas, políticas e principalmente uma grande crítica social. Laranja Mecânica é um livro pesado, e apesar da narrativa através das gírias, você consegue entender toda a ultraviolência que ocorre. Então não recomendo o livro para quem não gosta desse tipo de narrativa, pois o autor não reduz o impacto em suas palavras.
Nomes de partidos não significam nada. A tradição de liberdade significa tudo.
A história foi escrita há anos atrás, mas ainda conseguimos ver vários pontos em comum com a sociedade atual, onde somos dependentes da segurança interina sempre em busca de algo para nos proteger. Onde vemos golpes políticos para o favorecimento dos grupos mais elevados e a quase isolação de grupos de menores rendas. O mundo caótico, de violência e desigualdade retratado na história, também está presente na vida real em muitos lugares.

Alex é ruim, sua mente é ruim e quer praticar a violência, mas considerando tudo que ele passa e sofre na história, em determinadas partes até ficamos com pena do personagem, mesmo sabendo que, talvez, ele mereça tudo que lhe acontece. Alex cativa o leitor com suas gírias, seu jeito, sua ruindade, e sua insanidade que piora após o Método Ludovico, e quase nos faz acreditar que ele não seja tão ruim, mostrando que a bondade é subjetiva.

É um livro forte, que muitas pessoas talvez não criem coragem para ler. É um livro que se le rápido sim, depois que você já está familiarizado com o vocabulário do protagonista, mas é um livro que deve ser apreciado e não só passar os olhos pelas palavras. É um livro de antagonismos entre o que é bom e o que é mal, sobre as praticas agressivas do governo autoritário e sobre a confusão interna de um personagem perturbado. É um livro que deve ser lido.


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