Editora: Fantasy / Casa da palavra
Páginas: 256
Esse é mais um livro de escritor brasileiro que me cativou de uma forma incrível. Foi através dos nerdcast que conheci o escritor e quando vi o livro numa promoção resolvi comprar. O desing da capa já ajuda a conquistar os leitores e conforme você vai lendo descobre o excelente trabalho do próprio autor como ilustrador.
Adapak é filho de um dos quatro deuses e criadores de Kurgala. O jovem de pele cor de carvão e olhos brancos cresceu em uma ilha sagrada, afastada e adorada pelas espécies do mundo, cercado de toda a sabedoria e conhecimento divino adquirido basicamente por livros e conselhos. Apesar de ser treinado para lutar através do Círculos de Tibaul, Adapak não possui vivência do mundo, mas quando completa 19 anos, um grupo misterioso invade a ilha e o jovem se vê forçado a fugir e se expor aos olhos do mundo pela primeira vez.
"Acho que é porque às vezes – o homem começou a responder, fazendo uma pausa enquanto pensava no resto da frase – os pais acham que vai ser mais fácil se derem um “empurrãozinho” para que os filhos pensem da mesma maneira que eles... Eles não fazem isso por mal, entende? Quando temos uma filosofia de vida que sentimos que funciona bem para nós, é natural que desejemos o mesmo para alguém que gostamos, principalmente nossos filhos. O problema é que em grande parte das vezes, e isso digo como um sacerdote que já viu esse padrão dezenas de vezes, os filhos acabam desenvolvendo uma barreira contra aquela filosofia, pois estão sendo forçados a aprendê-la."
A trama já começa com uma cena de ação onde Adapak revela as técnicas aprendidas do Círculo, porém sem revelar o que eles realmente são, formando então, já no início, um dos mistérios do livro. A narrativa é rica de detalhes, tanto nas características dos personagens como do restante do cenário. Lendas e a cultura em geral, de cada espécie estão presentes no livro, aguçando a curiosidade do leitor e fazendo com que a leitura flua rapidamente.
Uma das partes da cultura, e também da formação do personagem, é mostrada no começo de cada capítulo, com citações das Aventuras de Tamtul e Magano, série fictícia lida pelo protagonista que muitos (inclusive eu) esperam que Solano publique futuramente, e também partes das Tábuas Dingiri. Essas pequenas citações veio para tornar a leitura ainda mais agradável, já que conhecemos uma nova cultura.
No começo, a leitura é um pouco confusa já que o enredo é narrado em 2 tempos, um no presente e um no passado num estilo de lembranças que mostram o porque do personagem estar onde está. Contudo, mesmo com a troca temporal a narrativa é fácil e logo você se acostuma que o presente e o passado do personagem se cruzam para explicar melhor a história.
Estamos acostumados a ver os deuses pelo cenário de Percy Jackson, porém o universo criado no romance de estreia de Affonso Solano é bem diferente e original. Apesar de serem deuses os personagens apresentam características bem humanas, como por exemplo, a inocência e ingenuidade, ao se descobrir o mundo ‘real’ que são difíceis ate para um espadachim filho de um deus. Também apresentam sentimentos de amor e esperança, e algumas vezes raiva, que explicam os motivos de tudo estar acontecendo.
"Quando somos crianças, nos é dito que o mundo é... ruim, sim – ele por fim disse, mantendo os olhos em um ponto fixo do tapete, como se acessasse um ponto denso da memória. – Mas conforme crescemos e o vivenciamos, aos poucos entendemos que o ruim não é puramente “ruim” e o bom não é puramente “bom”. O bom e o ruim andam juntos, você tem que aceitar um para entender o outro."
Achei a trama interessante e fiquei motivada a querer descobrir mais sobre Kurgala. O livro tem um grande potencial de narrativa (mesmo com nomes complicados) e acredito que Solano esteja no caminho certo para um segundo livro. Para os fãs de fantasia, aventura e ação o livro é uma boa pedida.


