Editora: Darkside
Páginas: 320
Na floresta há um monstro. E coisas horríveis ele fez. Na floresta ele se esconde, e canta esta canção.
Logo que vi esse livro, pensei: eu preciso desse livro na estante e meu Deus as páginas são rosas! Sim, fui presa por essa maravilhosa edição da Darkside, que caprichou no design e não resisti à compra. A Menina Submersa é, no mínimo, um livro peculiar diferente de tudo o que já li, o que torna complicado fazer uma resenha sem confundir todo mundo.
O livro conta a história de India Morgan Phelps, ou Imp, que assim como sua mãe e sua avó possui esquizofrenia. Imp é totalmente complicada, e para se livrar das situações de desconforto em que acredita estar, ela começa a escrever um livro sobre sua vida após encontrar uma mulher nua na beira da estrada e a levar para casa.
Por ter uma mente incompreensível, é quase impossível confiar na narrativa da personagem. Ela nos leva a algo, a acreditar que aquilo aconteceu, mas suas crises atrapalham nosso julgamento da história. Muitas vezes me peguei mais confusa do que a própria personagem, reli trechos e, ainda assim, não sabia o que era real ou não durante toda a narrativa.
Fantasmas são essas lembranças fortes demais para serem esquecidas, ecoando ao longo dos anos e se recusando a serem apagadas pelo tempo.
A história toda se baseia na mente perdida de nossa personagem, que em meio a lobos, fantasmas e sereias, não consegue decidir qual dessas partes foram reais em sua vida. A história nos faz buscar um fantasma que talvez só exista na cabeça da personagem. O livro não possui uma ordem cronológica de acontecimentos, o que retrata perfeitamente a falta de memória de Imp. Em algum momento estamos lendo sobre determinada coisa, dois parágrafos depois já nos perdemos em meio as informações confusas de nossa protagonista.
Imp não consegue organizar seus pensamentos, não consegue decidir o que viveu de verdade e o que foi imaginação, se confunde e se perde no meio de suas explicações e histórias, e isso, nos faz entrar plenamente na cabeça dela. Assim como ela, não conseguimos compreender nada do que acontece a sua volta, nos perdemos nas informações, relembramos, e achamos que entendemos. Tudo muito confuso. Acredito que a intenção da autora foi justamente essa: nos fazer entrar na mente da personagem e perceber que assim como ela, não sabemos nada.
A falta de ordem na narrativa é o ponto principal do livro, pois assim tentamos entender o que se passa na mente de Imp, e notamos que talvez estamos loucos que nem ela. Achei sensacional. Às vezes ela narra algo que aconteceu, mas se perde em meio às informações, às vezes nos fala sobre algo que ainda vai acontecer, às vezes retorna a eventos que já nos contou anteriormente, mas que precisa dar mais informações sobre eles, e às vezes fala de si mesma em terceira pessoa, nos deixando perdidos. É realmente confuso, mas ao mesmo tempo incrível.
Outro ponto forte no livro é o fato de Imp ter um relacionamento com outra mulher, deixando de lado todos os preconceitos e padrões estipulados por nossa sociedade. Aqui, o relacionamento das duas é lindo e de plena confiança. Abalyn aguenta todas as loucuras de Imp, a ajuda em momentos difíceis e continua a seu lado apesar de todos os dramas que encaram.
Assim como Abby é o alicerce de Imp, o que a mantém pensando claramente, seu porto seguro da lucidez, Eva Caning é a ruína, a decadência, de nossa personagem. Eva é todos os personagens das histórias de Imp, ela é mulher, sereia, lobo, fantasma, a catástrofe que rói todos os sentidos e claridade de Imp. A cada nova página, parece que Eva tenta controlar e destruir tudo em Imp, e Abby participa de uma luta invisível para salvá-la de seus próprios pensamentos.
O livro é cheio de metáforas, às vezes sem noção, que parecem não ter sentido para a história, por isso deve ser lido com atenção, mesmo que tudo pareça não fazer sentido algum. Eu adorei o livro, mas terminei sem saber se tinha entendido tudo. Na minha opinião, essa foi a intenção da autora, nos confundir, transmitir um turbilhão de informações e nos deixar em duvida se entendemos a história de Imp.
A sensação que tive, ao terminar a história, é que estava tão perdida quanto a personagem, mas tudo bem, porque era exatamente isso que deveríamos sentir. A história não precisava de uma resposta, não precisava de uma conclusão. A autora quis mesmo que imaginássemos tudo aquilo e decidíssemos por nós mesmos o que era real ou não. Talvez tudo seja real, talvez tudo seja parte da doença, talvez vocês também estejam se confundindo agora.
A psicologia envolvida no livro é muito forte, quem sabe a falta de remédios da nossa personagem seja o que desencadeou toda a história, ou todo o drama vivido, ou ainda a pressão de saber que possui os genes da esquizofrenia que sua mãe possuía. A história é complexa, ficamos cercados por imensos dilemas mentais da personagem, medos, angústias, falta de realidade e um terror psicológico que nos envolve também. Mas, justamente por ser tão confusa, ela se torna boa, contudo é preciso ter paciência, e TENTAR entender os dramas de Imp, talvez sem conseguir.
Leia o livro, tente entender o cenário denso e um tanto lento dele, mas aceite caso não consiga compreender a mente perturbada de Imp, as coisas são assim mesmo.
Esse foi o primeiro livro lido para o projeto Leia Mulheres que está sendo desenvolvido aqui no blog
