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2 de março de 2016

Resenha: A Menina Submersa - Memórias

Autora: Caitlín R. Kiernan
Editora: Darkside
Páginas: 320


Na floresta há um monstro. E coisas horríveis ele fez. Na floresta ele se esconde, e canta esta canção.

Logo que vi esse livro, pensei: eu preciso desse livro na estante e meu Deus as páginas são rosas! Sim, fui presa por essa maravilhosa edição da Darkside, que caprichou no design e não resisti à compra. A Menina Submersa é, no mínimo, um livro peculiar diferente de tudo o que já li, o que torna complicado fazer uma resenha sem confundir todo mundo. 

O livro conta a história de India Morgan Phelps, ou Imp, que assim como sua mãe e sua avó possui esquizofrenia. Imp é totalmente complicada, e para se livrar das situações de desconforto em que acredita estar, ela começa a escrever um livro sobre sua vida após encontrar uma mulher nua na beira da estrada e a levar para casa. 

Por ter uma mente incompreensível, é quase impossível confiar na narrativa da personagem. Ela nos leva a algo, a acreditar que aquilo aconteceu, mas suas crises atrapalham nosso julgamento da história. Muitas vezes me peguei mais confusa do que a própria personagem, reli trechos e, ainda assim, não sabia o que era real ou não durante toda a narrativa.
Fantasmas são essas lembranças fortes demais para serem esquecidas, ecoando ao longo dos anos e se recusando a serem apagadas pelo tempo.
A história toda se baseia na mente perdida de nossa personagem, que em meio a lobos, fantasmas e sereias, não consegue decidir qual dessas partes foram reais em sua vida. A história nos faz buscar um fantasma que talvez só exista na cabeça da personagem. O livro não possui uma ordem cronológica de acontecimentos, o que retrata perfeitamente a falta de memória de Imp. Em algum momento estamos lendo sobre determinada coisa, dois parágrafos depois já nos perdemos em meio as informações confusas de nossa protagonista.

Imp não consegue organizar seus pensamentos, não consegue decidir o que viveu de verdade e o que foi imaginação, se confunde e se perde no meio de suas explicações e histórias, e isso, nos faz entrar plenamente na cabeça dela. Assim como ela, não conseguimos compreender nada do que acontece a sua volta, nos perdemos nas informações, relembramos, e achamos que entendemos. Tudo muito confuso. Acredito que a intenção da autora foi justamente essa: nos fazer entrar na mente da personagem e perceber que assim como ela, não sabemos nada.

A falta de ordem na narrativa é o ponto principal do livro, pois assim tentamos entender o que se passa na mente de Imp, e notamos que talvez estamos loucos que nem ela. Achei sensacional. Às vezes ela narra algo que aconteceu, mas se perde em meio às informações, às vezes nos fala sobre algo que ainda vai acontecer, às vezes retorna a eventos que já nos contou anteriormente, mas que precisa dar mais informações sobre eles, e às vezes fala de si mesma em terceira pessoa, nos deixando perdidos. É realmente confuso, mas ao mesmo tempo incrível.


Outro ponto forte no livro é o fato de Imp ter um relacionamento com outra mulher, deixando de lado todos os preconceitos e padrões estipulados por nossa sociedade. Aqui, o relacionamento das duas é lindo e de plena confiança. Abalyn aguenta todas as loucuras de Imp, a ajuda em momentos difíceis e continua a seu lado apesar de todos os dramas que encaram. 

Assim como Abby é o alicerce de Imp, o que a mantém pensando claramente, seu porto seguro da lucidez, Eva Caning é a ruína, a decadência, de nossa personagem. Eva é todos os personagens das histórias de Imp, ela é mulher, sereia, lobo, fantasma, a catástrofe que rói todos os sentidos e claridade de Imp. A cada nova página, parece que Eva tenta controlar e destruir tudo em Imp, e Abby participa de uma luta invisível para salvá-la de seus próprios pensamentos.

O livro é cheio de metáforas, às vezes sem noção, que parecem não ter sentido para a história, por isso deve ser lido com atenção, mesmo que tudo pareça não fazer sentido algum. Eu adorei o livro, mas terminei sem saber se tinha entendido tudo. Na minha opinião, essa foi a intenção da autora, nos confundir, transmitir um turbilhão de informações e nos deixar em duvida se entendemos a história de Imp. 

A sensação que tive, ao terminar a história, é que estava tão perdida quanto a personagem, mas tudo bem, porque era exatamente isso que deveríamos sentir. A história não precisava de uma resposta, não precisava de uma conclusão. A autora quis mesmo que imaginássemos tudo aquilo e decidíssemos por nós mesmos o que era real ou não. Talvez tudo seja real, talvez tudo seja parte da doença, talvez vocês também estejam se confundindo agora.


A psicologia envolvida no livro é muito forte, quem sabe a falta de remédios da nossa personagem seja o que desencadeou toda a história, ou todo o drama vivido, ou ainda a pressão de saber que possui os genes da esquizofrenia que sua mãe possuía. A história é complexa, ficamos cercados por imensos dilemas mentais da personagem, medos, angústias, falta de realidade e um terror psicológico que nos envolve também. Mas, justamente por ser tão confusa, ela se torna boa, contudo é preciso ter paciência, e TENTAR entender os dramas de Imp, talvez sem conseguir.

Leia o livro, tente entender o cenário denso e um tanto lento dele, mas aceite caso não consiga compreender a mente perturbada de Imp, as coisas são assim mesmo.


Esse foi o primeiro livro lido para o projeto Leia Mulheres que está sendo desenvolvido aqui no blog

29 de maio de 2015

Resenha: A Noite dos Mortos Vivos e a Volta dos Mortos Vivos

Autor: John Russo
Editora: Darkside
Páginas: 320

Ao contrário de muitos livros, a história de A Noite dos Mortos-Vivos foi baseada no filme homônimo gravado por George Romero e seu colega John Russo, autor do livro. O livro foi lançado primeiramente em 1973 e posteriormente Russo escreveu A Volta dos Mortos-Vivos que não foi produzida nas telonas (essa obra não tem relação com o filme do mesmo título dirigido por Dan O’Bannon).

As duas histórias foram publicadas pela editora Darkside, e nem precisamos falar sobre o excelente trabalho de design, produção da capa, e diagramação com fotos nas páginas dos livros. Simplesmente excelente, a editora aposta mesmo no escuro, deixando os fãs do terror ainda mais apaixonados. 

O livro deu origem às tramas do terror e dos zumbis de uma excelente forma, deixando características para as demais histórias que surgiram posteriormente, como Resident Evil e até mesmo The Walking Dead. 
“Os rostos dos agressores eram rostos de defuntos. A carne estava putrefata e gotejava pus em alguns pontos. Os olhos inchados projetavam-se para fora das órbitas profundas. Tinham a pele pálida, branca como gesso. Moviam-se com dificuldade, como se a força misteriosa que os ressuscitara não tivesse feito um trabalho completo”
Como vocês devem ter notado, o livro é dividido em duas histórias, na primeira, podemos notar a incerteza entre os personagens que não sabem a origem do problema, a urgência em sobreviver em meio ao caos e o comportamento humano nas situações extremas, em um estado de paralisação diante do problema, que pode levar a morte. 

A primeira história começa num cemitério (local bem apropriado hem), onde Barbara (a personagem mais chata da história) e seu irmão Jonny estão visitando o túmulo de seu pai. Jonny não gosta da situação, pois para ele a mãe e a irmã já deviam ter superado a morte do pai e com isso resolve amedrontar a irmã com um homem que se aproximava do local. Ele diz à irmã que o homem era um morto que voltou a vida, mas ele não imaginava que sua ‘pequena’ brincadeira se tornasse real.


Depois do ataque sofrido aos irmãos, a trama se concentra basicamente em um pequeno grupo de sobreviventes em uma casa rural, onde mais acontecem ataques. O grupo tenta lutar contra a tensão e o pânico de estarem presos sem recursos suficientes para sobreviver em uma casa rodeada por mortos-vivos. A única solução que lhes resta é ter esperança de que o resgate apareça. 

O final pode chocar um pouco os leitores, mas mostra realmente como as pessoas reagem nas situações de risco. É basicamente agir pra depois perguntar, e o resultado disso não é bom para quem está em perigo.
“Que seu corpo nunca se erga novamente”
Dez anos depois, a história volta a se repetir com A Volta dos Mortos-Vivos, em uma nova versão apocalíptica, mas como na primeira situada mais nas regiões rurais e não nas cidades. Nesse segundo livro, os personagens além de lutar contra a infestação dos mortos ainda precisam lidar com estupradores, assassinos e saqueadores que estão à solta na região meio oeste dos EUA. 

Perseguições, fugas desesperadas, desesperança, falta de humanidade e uma confirmação de que o problema pode ser os vivos e não apenas os mortos, fazem parte dessa continuação criada por John. 

O livro começa com cenas de religiosos que acreditam que cravar estacas na cabeça dos mortos seja a melhor maneira de evitar que a praga ressurja. Quando ficam sabendo de um acidente envolvendo um ônibus, o misterioso grupo resolve invadir a cena do acidente fatal e fincar estacas nos crânios de todas as vítimas para evitar que o cenário da trama anterior se repetisse. 
“Que sua alma descanse em paz. Que sua alma deixe o corpo. Que seu corpo permaneça. Que seu corpo transforme-se em pó, como disse nosso Senhor. Que seu corpo nunca se erga novamente. Liberte a alma para os céus e transforme todo o resto em pó.”
Mesmo tentando evitar que o caos se repetisse, a decisão do grupo não foi suficiente, e os mortos do acidente começam a ressuscitar nos necrotérios da pequena cidade, sedentos por carne humana.

Sendo assim, a narrativa consegue construir um cenário perfeito de uma civilização desordenada, desesperada e em pânico, que precisa salvar sua pele, sem que haja um herói para salvá-los. É cada um por si e literalmente um salve-se quem puder, enfrentando zumbis e pessoas que não estão preocupadas com a vida dos outros, e não se importam em atirar os vivos como ‘alimento’ para os zumbis. Muitos, devido ao medo e o horror da situação, acabam atirando a sangue frio e fazendo perguntas depois, o que resulta em graves erros que mudam a história para todos.

Nos dois livros, o enredo conta com trechos de transmissões de rádio da Defesa Civil, que funcionam para informar os leitores e os personagens sobre a situação do país em diversas áreas deixando um pouco de esperança de como sobreviver a tudo isso. Esses trechos ajudam muito na ambientação da história, fazendo com que a tensão entre os personagens cresça ainda mais.


Os zumbis da narrativa não são como os mortos-vivos de atualmente, eles ainda tem uma pequena parcela de atividade cerebral dentro de suas cabeças apodrecidas. Logo nas primeiras cenas há um zumbi que ataca sua presa com uma pedra repetidamente até matá-lo de vez. Outro ponto dos zumbis, é que eles preferem um corpo quente, ou seja, preferem arrancar os órgãos de um individuo recém-morto do que de algum que esteja no chão há mais tempo. 

As duas histórias tem finais surpreendentes, então se você espera finais felizes para sempre, lamento dizer, mas terá que encontrar outro livro. Não se iluda, não crie esperanças para os personagens, pois a morte está presente em todo lado. 

Como já disse, a Darkside fez um excelente trabalho de diagramação, há uns errinhos de tradução e concordância em algumas partes, mas nada que atrapalhe a leitura. Gostei da história e como as pessoas lidam com situações extremas. O livro é um clássico e todos os fãs desse gênero deveriam ler.


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